Horizontes

Há dias em que nos apetece tudo menos ir treinar. Estamos cansados do trabalho, dá bola na televisão, não encontramos as calças do quimono, enfim mil e duas coisinhas que nos sussuram: Não vás… Hoje fica em casa… O sofá está mesmo a precisar de te massajar as costas…

Mas depois a imagem do Vita sussura no outro ouvido: Oh pangaré! Tá dando moleza? Faz de calção, de cueca, de fato de banho não quero saber… VEM TREINAR!

Sacudimos a cabeça e as vozes. Encontramos o quimono debaixo da pilha de roupa que está no quarto e vamos para a Academia. A mim, pessoalmente, nesses dias as rolas nunca me correm bem. Levo de todos.

A motivação é um catalizador importantíssimo na nossa performance no fim da aula. Mas o mais importante ficou lá, as técnicas novas, a condição física… as derrotas e acima de tudo a disciplina de IR.

É que o caminho é longo, não no sentido de uma Rota da Seda, mais no sentido de uma circunanvegação… sempre a direito e com sorte nunca pararás e nunca passarás duas vezes na mesma corrente. Pois a faixa preta não é o ponto B de uma recta, nem uma solução deus ex machina… a preta é apenas o dobrar de um horizonte, com outro horizonte logo ali

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por Zack

Sérgio Canudo

caudophotoblog

Nascido há 31 anos no Rio de Janeiro, o faixa preta Sérgio “Canudo” é o que os anglo-saxónicos classificariam de uma personagem “larger then life”.

Canudo aliás António Zimmermann Cardoso, que se consagrou Campeão Europeu no peso e no Absoluto Masters no último Open de Lisboa é um bom exemplo da teoria que diz que o nosso estilo de Jiu-Jitsu é muitas vezes é uma extensão da nossa personalidade. Com movimentos amplos de pernas e um esbracejar que não deixa ninguém indiferente, o jogo de Sérgio Canudo é um verdadeiro reflexo da sua personalidade extrovertida, ainda que distante.

Para além de “letal” como um helicóptero Apache, este faixa preta consegue ainda ser o único atleta que conheço que rola sempre com um quase imperceptível sorriso nos lábios. Uma expressão inquietante e desconcertante quando sabemos que dentro da cabeça do nosso sorridente adversário estão 1001 maneiras de nos apertar os gasganete.

Caindo no cliché de compartimentar lutadores de Jiu-Jitsu em “guardeiros” e “passadores”, Canudo é na minha opinião um “guardeiro” fora de série.

Lembro-me de numa das duas únicas rolas que dei com o Canudo, ele frustrado com o meu péssimo Jiu-Jitsu, parou e disse: “Vá faz qualquer coisa” e colocou-se numa posição lateral ligeiramente enrolado protegendo os antebraços… A defesa “peso-morto” foi em si tão eficaz que eu não consegui fazer nada… e isso é muito frustrante.

Idade e local de nascimento.?

31 anos – Rio de Janeiro

Com que idade começaste a praticar JJ?

Comecei com 15 anos…

Quem te levou ou como conheceste a arte?

Já tinha amigos que praticavam e eu treinava Muai Thay e um dia no colégio faltou o nosso professor de Educação Física e tinhamos um Dojo inteiro a nossa disposição, e então começamos a brincar de luta, a famosa “taparia”, e um amigo meu toda hora me colocava para baixo e me enchia de tapa, foi ai que eu começei a olhar com outros olhos o Jiu-Jitsu, hoje esse meu amigo ainda é faixa roxa e sempre que eu encontro com ele ele me diz: ” lembra aquele dia que eu te meti a porrada? Fui eu que te trouxe pra cá”.

 Quantos anos até chegares na preta?

10 anos mais ou menos.

Ainda te lembras o que sentiste quando puseste a cobra negra na cintura pela primeira vez?

A primeira vez a gente nunca esquece. Estava trabalhando em uma sexta-feira normal e ja tinha um tempão sem treinar devido a motivos profissionais e o meu telefona toca, era o meu mestre Osiris Maia dizendo: ” Serginho tenho uma luta para vc fazer amanhã”… Eu respondi: ” mestre não treino a quase 2 anos…” E ele disse: “Não quero mais ninguém…. tem que ser você.” Então depois desse voto de confiança não tive como recusar, cheguei na manhã seguinte com o meu quimono e minha faixa marrom e quando chamam meu nome e entro no ringue, vem o Saddan ( outro faixa preta do Carlson Gracie) correndo e diz : ” Serginho tira esse faixa bicho e coloca essa aqui, você vai lutar com o Shaolin!!!!”. Na hora eu senti que aquilo já fazia parte da minha vida, tinham pessoas que confiavam em mim e que era a hora de eu mostrar o meu valor também na faixa preta. Neste dia eu perdi a luta casada, mas ganhei o respeito de muita gente e o mais importante foi despertar em mim o que eu já havia deixado de lado a um certo tempo, a vontade de me superar, lutar e melhorar a cada dia.

Alguma luta memorável?

Tenho várias….. ficaria dias e dias falando sobre as lutas, mas nenhuma em especial….

Derrota que nunca esquecerás?

A minha primeira luta na faixa branca onde perdi para um aluno do Alan Góes de 3X2, o cara passou a minha guarda. A partir desse dia eu coloquei na minha cabeça que eu tinha que treinar mais a minha guarda fechada, para isso não acontecer mais e no fundo acho que resultou.

 Algum lutador que admires muito?

Tenho vários!!! Osiris Maia, Amaury Bitetti, Wallid, entre outros…

Que conselho darias a um faixa branca de 3 riscas?

Treine forte, com o coração , mas nunca se esqueça que a maior faixa preta que um homem pode ter não é aquela que ele carrega na cintura e sim a faixa preta do caráter, essa nem todos podem ter.

por Zack

Fábio Fetter

 

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Fábio Fetter (na foto de quimono escuro) é outro dos três faixas pretas da minha Academia. Sendo o guerreiro por excelência, dedicado em toda a linha à sua condição fisica e à sua saúde, Fábio é talvez o mais “científico” dos três. Aliando treinos especificos a uma determinação admirável, este natural de Porto Alegre no Rio Grande do Sul é um bom exemplo do que é o “Jiu-Jitsu life style” e da máxima de Nicolas Gregoriades: Jiu-Jitsu não é algo que tu praticas, Jiu-Jitsu é algo que tu és.

Tal como o Canudo, a sua prestação no Europeu de Lisboa foi sensacional, tendo dividido o pódio com o colega, na categoria Meio-Pesado, Preta Master.

Aqui fica o questionário que lhe fiz.

 Idade e local de nascimento?
 
Nasci em Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, Brasil a 8 de setembro de 1977, portanto, 31 anos.

Com que idade começaste a praticar JJ? Quem te levou ou como conheceste a arte?

Comecei em Setembro 1996, então eu tinha feito 19 anos. Quem me levou foi um amigo, o Newton. Ele esteve aqui em Portugal em Novembro. Me motivei pois treinava kungfu deste os 13 anos, e o Newton me desafiou pra uma lutinha de amigos. Lembro como se fosse ontem a surra que ele me deu na sala da casa da minha Avó. Tinha que aprender aquilo, ele com 6 meses de Jiu-Jitsudesmanchou minha “larga” experiencia.

Quantos anos até chegares na preta?
 
11 anos.

Ainda te lembras o que sentiste quando puseste a cobra negra na cintura pela primeira vez?

 Quando ganhei a faixa achei que não era hora. Achei que finalmente estava me tornando um faixa marrom bom, e aquela promoção fazia de um marrom bom num preta fraco. Mas sempre disse quando me perguntavam quando eu teria a faixa preta: “- Isso não é decisão minha.” Mesmo quando eu treinava sem nenhum preta por perto eu dizia isso. Nunca iria pedir uma faixa a alguém e se fosse necessário ficaria na marrom para sempre. Recebi várias propostas de faixa, as quais rejeitei. Mas desafio é isso mesmo, e tenho treinado não pensando em competição, mas pensando em honrar a faixa que recebi e por consequência honrar aqueles que me graduaram.

Alguma luta memorável? Derrota que nunca esquecerás? 

 As lutas que faço questão de não apagar foram as duas de Vale Tudo que fiz em 1998. Era faixa branca e fui lutar para substituir um amigo que morreu um mês antes. Aceitei por ser por ele, mas foi o melhor que pude fazer pelo meu Jiu Jitsu. Depois de entrar num ringue onde tudo pode acontecer, e aquele Vale Tudo valia mesmo tudo, fiquei muito mais tranquilo para lutar Jiu Jitsu. Alias foi o primeiro campeonato que ganhei. Depois desse, tudo ficou mais fácil. Acho que nunca vou esquecer nenhuma derrota.

Algum lutador que admires muito?   

Admiro muito os lutadores que conseguem não parecer lutadores. Pessoas que são seres normais, mas que no tatame são bons. Pais de família, trabalhadores ou mesmo “apenas” lutadores, mas que tem a consiencia que a Jiu Jitsu é uma parte da vida e não o oposto. Mas para resumir pra dar nome aos bois, gosto de todos os lutadores que treinam lá no Dramático. Pois esses são os que me fazem melhorar. E quando eu falo todos, me refiro desde o Miguelzinho até o Sr. Martins, e das miúdas faixa branca ao Canudo e o Vita.  Sou fã de todos estes.

Que conselho darias a um faixa branca de 3 riscas?   

Os conselhos seriam: não existe momento perfeito, nem local perfeito, nem condições perfeitas de treino nunca. Então não se preocupa com como as coisas deveriam ser, e sim tira proveito de como as coisas são. O melhor dia pra treinar é hoje. Depois é: se até um idiota como eu chegou a faixa-preta, qualquer um pode chegar lá. A questão é que a larga maioria desiste no caminho, e muitos desistem por não ter em conta o primeiro conselho. Quem quer arranja um meio, quem não quer arranja uma desculpa. E não importa se tu se acha bom ou ruim, pois de qualquer das formas vais estar sempre certo.

por Zack

Orgulhoso de pés no chão

Ontem foi um dia especial. O meu Professor oficializou os meus três graus de faixa branca. Não que fossem alguma espécie de obsessão, mas como em todas as viagens, é sempre bom ver os quilómetros passar…

Recordando algo que Bruce Lee disse sobre a progressão de um praticante de artes marciais:

“É como um dedo apontado à Lua. Se olhares para o dedo não apreciarás a beleza celestial.”

por Zack

Incentivo ou avaliação?

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Por imperativos de agenda profissional, na passada segunda-feira não consegui ir treinar com a minha equipa no ginásio habitual, pelo que pedi autorização ao Sérgio para ontem ir rolar num dos outros ginásios onde ele também dá instrução. Treinei uma coisa que nunca tinha feito… O triangulo apartir da guarda, tendo o braço do adversário laçado por fora… Pé no quadril e BUM! Encaixar a técnica!

Na hora da rola atirei-me às feras, primeiro com GI e depois sem GI, esta última rolei com o Sérgio… Quando se rola com o Professor, o patamar de exigencia aumenta sempre. Tentamos dar o nosso melhor, tentamos impressionar. A dúvida que eu tenho é:  “Nós valemos pela luta que damos ao Professor ou pela média da qualidade técnica das lutas que fazemos com os outros?”

É que a qualidade média das lutas que fazemos com os outros é sempre inferior, independentemente de pontuarmos mais ou chegarmos mesmo a finalizar.

Outra dúvida que subsiste na cabeça de todo e qualquer praticante de BJJ que role com o seu Professor é se as apreciações positivas que ele faz no fim das rolas, são genuinas no conteúdo ou se são meros incentivos do género “não desistas! Tás a apanhar bonés, mas não desistas!”

Ontem depois de rolar com o Sérgio ele elogiou a minha performance, na semana passada, depois de também termos rolado (com GI) ele disse-me que o meu jogo estava mais agressivo e as minhas bases muito melhores.

Incentivo? ou avaliação?

por Zack

Campeonato Europeu – Parte 2

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Voltando ao Open de Lisboa… Foi interessantíssimo ver atletas de todo o mundo, ingleses, polacos, alemães, franceses, argelinos, marroquinos e até dos emirados.

Foi um fim de semana em que só respirei Jiu-Jitsu. Inspirado pela garra e determinação que vi em alguns dos tatames, senti alguma vontade em competir, coisa que até agora nunca me tinha atingido. Mas do querer ao fazer vai alguma distância.

Vou tentar colocar no YouTube um video delicioso que fiz do Kron a aquecer com seu pai, o lendário Rickson Gracie.

Inspirado pelo Campeonato Europeu tomei duas resoluções:

1) Treinar 3x por semana

2) Aumentar a minha combatividade nos treinos

por Zack

Campeonato Europeu – Parte 1.

Grande Campeonato Europeu! Tive a felicidade de poder assistir aos três dias de competição e que evento! Lutadores galácticos como Lúcio “Lagarto” Rodrigues, Canudo, Megaton, Fábio Gurgel, Kron Gracie, Mário Reis e claro as estrelas despontantes da minha Academia Anderson Fetter, Victor Tic-Tac, Claudio Ly, Bertelim “Betão” Semedo, David “Queixada” Valadares, Luisinho, Vitório e o clássico Silvério Martins.

Eis os resultados da equipa de Sérgio Vita:

Faixa Branca
Categoria Pena

1º lugar: Claudio Ly
2º lugar: Victor Cardoso

Faixa Azul
Categoria Pena

2º lugar: David Valadares

Sénior 3 Categoria Meio Pesado

3º lugar Silvério Martins

Quatro premiados num universo de nove atletas… parece-me uma estatística muito positiva… e tudo graças a quê?

por Zack